quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

As marcas do tempo


As marcas do tempo que as paredes sofrem contam uma história. 
O tempo passa, estraga e também cura.
O tempo passa e deixa suas marcas. 
O que ontem era amargura hoje são memórias, registros fotográficos e texto.


Tem um hipopótamo nadando na parede


Quando deparei-me com o monstro no reflexo não adiantou fugir.
O que antes separado agredia a razão, uma vez revelado fortaleceu.
Sonhos premonitórios, rezas protetoras, conselhos amigáveis apuraram seus contornos.
Quanto mais se via, pior ficava e eu ia reconhecendo suas feições.
Um dia, pela manhã, ele apareceu nítido no meu reflexo.


Bonequinhas









 

Muito menos de salto alto





Eu giro o mundo aprendendo o nome dado às suas terras. 
Onde moro já foi conhecido como Bandas d'além. 
Águas escondidas. Território. Ocupação. Aterragens.

O Rio Passarinho não existe mais,
Em cima dele mora um hospital, 
Em cima dele as ruas tem nomes.

Aqui quando venta vem vento lá da Baía desdentada, boca banguela. 
Ônibus, aviões e buzinas de navio.
Escuto o que o vento traz e ele também farfalha aqui em frente,
Zumbidos e pios de coruja também tem.

Ao longe enteado pula, canta e ouve bobagens gritados na TV.

Ninguém tá salvo, nem os de sapato.

Comic Strip Tease_Lui Morgan












 

terça-feira, 21 de novembro de 2023

A sereya e o Hipocampo

 




Governo do Estado do Rio de Janeiro, Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, através do Edital Cultura Presente nas Redes 2, apresentam:


”Um filme curta-metragem experimental de ficção documental, com animação stop motion, filmado em celular, explorando as limitações e possibilidades desta ferramenta,

Este trabalho artístico contempla o primeiro encontro de minhas duas personas; LiliMorgana, alterego, sereia, burlesca, personagem desenhado, inventora de mundos e Mulher Esqueleto, colecionadora de objetos antigos, pintora ocasional, preocupada com economia sustentável, apaixonada por artefatos, roupas e acessórios de época e que tem um acervo e brechó.

O curta-metragem terá em torno de vinte minutos, e conta o dia que LiliMorgana encontra um unicórnio de brinquedo na praia e, imbuída com os valores da Esqueleto, leva-o pra casa para restaurá-lo e o transforma num hipocampo, ser mitológico metade cavalo metade peixe e o devolve ao mar.

#SececRJ, #CulturaPresente #CulturaPresentenasRedes2.


Este projeto conta com patrocínio do Governo do Estado do Rio de Janeiro, Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, através do Edital Cultura Presente nas Redes 2


sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Nem tem questão, uncle Shake!


Neste mundo não me reconheço pessoa, apenas cores.
Sou algo de verme, anêmona, mitocôndria.
Quem dera fosse urso d'água, tardigrado imortal
Pode ser que eu sinta um pouco essa eternidade como gusano 
Observando o tempo passar devagarinho,
tão vagaroso quanto imperceptível.

Queria surdez, cegueira. 
Não sentir cheiros. 
Queria meu único sentido a pele.
O raciocínio também não me agrada. 

Odeio ser gente..

Antes bicho solitário do que mamífero. 
Reprodução assexuada. Partenogênese.
Eu e o mundo. Eu nada. Ego inexistente.
Sem pensar nem sentir.
Existir é o que me caberia.

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Ela







Ela fechou os olhos e depois abriu mas nunca mais nem respondeu pessoa.

Atestaram choque.

Por dentro ela sabia que nada tinha mudado e apenas desistira. Eliminou toda conexão com outros seres mamíferos como ela.

Foi assim, um dia ela sentou, olhou o céu, suspirou e nunca mais pronunciou palavra. Daí aos poucos seus ouvidos ficaram surdos. Ela não falava nem ouvia. O olhar fixo ao nada lhe trouxe a dádiva da cegueira.

Por último sentido a pele, a brisa soprando seus poros o frio arrepiando seus pelos o deslizar do suor pelas suas nádegas.

De pronto começaram a sacudir, empurrar, carregar o corpo teso em relutância e doía. Ela soltou os músculos lânguida escorregadia e as pernas dormiram. A câimbra contraia os espamos até que a pele também se desconectou


Ela berrou. Curto seco
Gemeu. Ela grunhiu.
Urrou até virar fiapo de voz.
Nada sentia ela.
Fim
Nada

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