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quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

As marcas do tempo


As marcas do tempo que as paredes sofrem contam uma história. 
O tempo passa, estraga e também cura.
O tempo passa e deixa suas marcas. 
O que ontem era amargura hoje são memórias, registros fotográficos e texto.


Tem um hipopótamo nadando na parede


Quando deparei-me com o monstro no reflexo não adiantou fugir.
O que antes separado agredia a razão, uma vez revelado fortaleceu.
Sonhos premonitórios, rezas protetoras, conselhos amigáveis apuraram seus contornos.
Quanto mais se via, pior ficava e eu ia reconhecendo suas feições.
Um dia, pela manhã, ele apareceu nítido no meu reflexo.


Muito menos de salto alto





Eu giro o mundo aprendendo o nome dado às suas terras. 
Onde moro já foi conhecido como Bandas d'além. 
Águas escondidas. Território. Ocupação. Aterragens.

O Rio Passarinho não existe mais,
Em cima dele mora um hospital, 
Em cima dele as ruas tem nomes.

Aqui quando venta vem vento lá da Baía desdentada, boca banguela. 
Ônibus, aviões e buzinas de navio.
Escuto o que o vento traz e ele também farfalha aqui em frente,
Zumbidos e pios de coruja também tem.

Ao longe enteado pula, canta e ouve bobagens gritados na TV.

Ninguém tá salvo, nem os de sapato.

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Nem tem questão, uncle Shake!


Neste mundo não me reconheço pessoa, apenas cores.
Sou algo de verme, anêmona, mitocôndria.
Quem dera fosse urso d'água, tardigrado imortal
Pode ser que eu sinta um pouco essa eternidade como gusano 
Observando o tempo passar devagarinho,
tão vagaroso quanto imperceptível.

Queria surdez, cegueira. 
Não sentir cheiros. 
Queria meu único sentido a pele.
O raciocínio também não me agrada. 

Odeio ser gente..

Antes bicho solitário do que mamífero. 
Reprodução assexuada. Partenogênese.
Eu e o mundo. Eu nada. Ego inexistente.
Sem pensar nem sentir.
Existir é o que me caberia.

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Ela







Ela fechou os olhos e depois abriu mas nunca mais nem respondeu pessoa.

Atestaram choque.

Por dentro ela sabia que nada tinha mudado e apenas desistira. Eliminou toda conexão com outros seres mamíferos como ela.

Foi assim, um dia ela sentou, olhou o céu, suspirou e nunca mais pronunciou palavra. Daí aos poucos seus ouvidos ficaram surdos. Ela não falava nem ouvia. O olhar fixo ao nada lhe trouxe a dádiva da cegueira.

Por último sentido a pele, a brisa soprando seus poros o frio arrepiando seus pelos o deslizar do suor pelas suas nádegas.

De pronto começaram a sacudir, empurrar, carregar o corpo teso em relutância e doía. Ela soltou os músculos lânguida escorregadia e as pernas dormiram. A câimbra contraia os espamos até que a pele também se desconectou


Ela berrou. Curto seco
Gemeu. Ela grunhiu.
Urrou até virar fiapo de voz.
Nada sentia ela.
Fim
Nada

domingo, 17 de julho de 2022

Fishing #rapunzel2022

 


A genetriz da Rapunzel pulou o muro da Jabiraca para roubar alguns raponços, nabos, rabanetes, beterrabas porque sabido eram mais gostosos. Ao ser descoberta trocou por perdão o feto em sua barriga prenhe.

A trança jogada pela janela na floresta de prédios balança ao vento. Rapunzel canta abafada pelos sons de automóveis passando, roncos buzinas motores e música amplificada no eco das ruas. 
Ninguém ouve Rapunzel cantar nem repara nas tranças lançadas tal convite e desespero solitário. Dia após dia, ninguém a lhe pedir as tranças. 

Ela canta. Penteia os cabelos. Joga suas tranças, ninguém repara. Nem mesmo alguém ouve seu canto.

Presa na torre, ouvindo o trinado das ruas esperando que o dia acabe e a noite caia silenciosa para recolher os cabelos retirando deles a passagem do tempo, coisas largadas, levadas ao vento e preso nas amarras da rede trança. Faz deles coleção... Folhas, canudos, penas, coisas...águas, humores da cidade. Um amontoado deles no canto da alcova contam histórias do passar dos dias. 

Dedos dedilhando harpa desembaraça os fios longos, enormes, um banquinho rente ao chão sentada ela canta separando os fios que caídos ficaram presos pela trança. 

Penteia, separa, perfuma, trança.

Rapunzel observa a luz emoldurar sua parede, a janela alta, uma varanda curta, a grade de ferro separa o dentro de fora a vegetação cerrada filtra a luz. O pequeno broto de salsa uma floresta se tornou feito muro. Ela pode ver quase nada. Ouve a cidade amanhecer. Aquele espaço no tempo da repetição. 
Recentemente tem ouvido um piano de harmonia e afinação aprendiz. Repetindo o mesmo acorde que infinito ressoa nas edificações. Nada muda. Só o tempo.
Trovões ou batidas de carro estendidos no tempo em uníssono o passar dos dias.

Trancada por alguém naquela torre, fatal destino. Será a feiticeira ou sua mãe sob as ordens de seu pai? Príncipes são modelos de contentamento.

Apenas suas tranças atravessam o espaço das grades. 
Ela joga. Anseia. De novo.

Canta acompanhando o piano. Volta a pescar. Joga a trança. Espera.

Aguarda. Anseia. De novo.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Três


Na casa dele tem um moedor de lixo na pia como o dos Flintstones e os melhores grãos e métodos de passar um café. Logo eu que filtrei café num pano de prato em profundo desespero da ausência do de papel.

Pés sujos e inchados, esmalte descascado, coxas assadas e caminhar arrastado. 

Lentamente estou me transformando num monstro guloso e mesquinho. Chifruda que empaturrada de comida perde seu tempo e saúde em recuperar o fôlego em segurança. 

Hoje passei um café ruim na minha casa e comi ovos mexidos como faço pra ele. A língua amarga da bebida açucarada e sentimentos ruins. Será que tode mundo sente essa necessidade de responder a pergunta mais difícil de todas?


Como amar sem se perder? Sem mergulhar em ti e respirar combinado? Quando estou muito perto de você parece que vira um mesmo, que clichê! Mas o que fazer quando olho pra você e tô me vendo? Longe, logo nos primeiros dias de distância se te reencontro já não sei com quem tô falando. 


É possível viver sem estar nessa outra parte que também te ocupa? I wish e wisho com toda a força e mistério da minha existência.

Por que dói? É que dá medo!


Aprecio meus momentos de solidão, que nada. É que ultimamente tenho estranhado meu espelho e minhas roupas também me estranham. Eu tô virando um monstro engolidor de sacaroses. Salivo, sonho, desejo… Sozinha vou me reconhecendo aos poucos, as inquietações despertam ao olhar questionador. O que está acontecendo com você?  Que lágrimas cristalizadas são essas? Quem te deu o direito de esquecer?


Nessa mística de monstro três entidades me acompanham, uma luz, a sombra e o invisível. 


Adoeci meu corpo. Sinal de alerta! Pressão baixa, dor no peito...agora selfie só mostra minhas escamas crescendo, o casco duro pesando, rosto paralisado num esgar contínuo. Who is dat grrl nesse selfie fulero?


Tô existencialista, affe, mim dêxa. Passarinha perdida do ninho, cantarolando a música dele num loop mental eterno. Como se dragões chorassem… me jogo eu mesma sem intenção de afogar, mas afogo.


A luz aponta, a sombra engole e o invisível ri.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

O amor acontece no vôo do pássaro


Sobrevoando os telhados decadentes dos edifícios da cidade praiana o pássaro negro, como uma banshee anuncia em sua chegada, alguém vai morrer! Nunca mais, diz o corvo. Alguém vai morrer, trina a Morgan.

Cada vez que amo novamente eu morro. O pássaro voa, a lágrima vem e tudo o que era certo torna-se ultrapassado. Descobri tardiamente que toda dor vinha da recusa em me transformar pelo acaso do encontro com outra alma irmã. Que tolice!

Quanto privilégio essa capacidade de fazer-me outre que só o amor pode proporcionar quando é despretensioso e incondicional. Me sinto atravessada por raios e águas luminosas. Se o outro é cego, incapaz de vislumbrar  essa força, nunca duvide da capacidade do tempo de ajustar essas mudanças. Teve um dia que Rapunzel reencontrou um dos seus amores aquele primeiro que lhe libertou e chorando lágrimas caíram sobre seus olhos restituíndo-lhe a visão. Olho por olho, dente por dente, alma multidimensional.

Neste dia, em que os contos serão recontado diante da verdadeira visão onde nada, nem ninguém pode ser propriedade de outro.

Jamais amamos da mesma maneira, nevermore, suspira o corvo. Cada coração novo, único e importante, multiconexões onde perda não há e sim transformações dos afetos e da vida vivida a partir deles.

Quando uma nova narrativa é criada, não condena outras aos esquecimento. O que morre é a parte daquilo que não quer mudar e os movimentos do curso engolem no caminho, resignificando-as. 

Marinheiro de últimas viagens nunca tem recomeçar.

Cada novo vôo do pássaro, cada vez que ele chega deve ser comemorado e glorificado sem medo algum. É seu único requisito. Temer desperta seu lado sombrio que põe todo amor a perder, pois ele precisa de festa, exaltação em exagero quanto mais ele cresce em poder.


" Eu te saúdo pássaro irmão! Que a tua presença traga o melhor do cornudo a minha existência."


sexta-feira, 24 de maio de 2019

Luzes




Apreciei a esperança refletida nas luzes quentes da loja de brinquedo que iluminavam a rua e os passantes com sua promessa de felicidade. Eu estava observando o ponto de ônibus pela janela da confeitaria e havia chovido. Os coletivos resfriavam com a sua luz fluorescente os respingos da chuva nos carros. Amarelo e azul. Hipnotizada indaguei, por onde você devia estar. - Será que posso te chamar ao celular por um instante? Vou te dizer que parti, não habito mais aquele lugar.

Desmanchei-me em memórias lendo as grafias melosas dos meus derradeiros escritos no caderno amassado de uso. Sempre as mesmas constatações, tudo tão igual. Ao longe toca a sineta do telefone fixo da loja de comer. Por que contamos o avanço do tempo pelas novidades tecnológicas? Herança dos sonhadores do sèculo XX, só pode. O por vir automatizado e artificial, isso era o futuro. Caligrafia é um desenho passional, a alma comunicando nas curvas das letras. Se lesses meu caderno, eu me faria entender? Caneta, papel, pauta, desenhos e letra. Memorial atemporal, registro e quimera. É possível sonhar o passado?

Gostaria de entender como as lembranças surgem... Acabei de recordar, eu caminhando num final de tarde sozinha, pelas casas geminadas da asa norte, cidade planejada, categorizada por números e letras, SHCGN, setor habitacional geminado norte 709/710. Para chegar até ali, tinha atravessado um pequeno corredor que separava dois blocos dessas casas, os pequenos gramados ao redor delas eram cercados por arbustos de folhas bem verdes e arredondadas, de onde nasciam flores brancas e cheirosas como dama da noite, criando um ambiente perfumado e romântico, diferindo das outras cercas de cipreste fedido e espinhento. Garota esperava o dia em que eu iria amar e acompanhada passaria por ali sob a lua cheia iluminando o amor e o caminho, crescida numa mais voltei por lá. Nesse dia, atravessei o caminho sem divagar e determinada cheguei até o limite da quadra onde havia o que poderia ser chamado de pequeno bosque com enormes árvores frutíferas nascidas em espaços de terra retangulares e delimitados por calçadas de concreto que ficavam cobertas de seus frutos. Brasília, anos 80, final do dia, não havia alma viva ao redor, casas modernas que pareciam habitadas por ninguém, ruas asfaltadas sem carros, janelas sem pessoas, parquinhos sem crianças. Enormes amendoeiras que davam um fruto que curiosamente chamávamos de coquinho e também árvores imensas de jamelão, uma fruta parente da jabuticaba com formato de berinjela, a pior fruta desta espécie nascia naquele quadrado de terra entre as calçadas de concreto, um gosto amargo de perfume ruim, nem mesmo a mais ousada das crianças conseguia comê-los e o chão ficava tingido de roxo do seu sumo e o ar adocicado de decomposição. Os coquinhos também não eram saborosos, tinham gosto de coco passado, por isso a alcunha, mas nos sentávamos em bandos debaixo de sua sombra roendo sua polpa fibrosa.

Neste dia, caminhei sozinha, atravessei amarga o cantinho dos namorados até esse local e olhei para mim sentada num café escrevendo essa memória. Até hoje eu não sabia o que tinha ido procurar por ali e agora sei que vim me contar um segredo. Pare e escute, velha monstrenga, seja lá o que isso significa, a vida vai ser difícil até aí? O se vai, pequena solitária, mas você sempre pode escolher diferente até chegar aqui. Este é o segredo que você me contou e estou recontando a você, nunca se esqueça de esquecer como foi que você fez. 

- Alô… Oi, cê tá muito ocupado pra mim? 

domingo, 24 de janeiro de 2016

Amores eletrônicos

Cada vez me convenço mais, o que nossos corações românticos querem é a narrativa do amor, afinal não foram as narrativas artísticas, os livros, poemas e poesias de amor, a música e os filmes que nos alimentaram de toda a baboseira do amor romântico?
Os encontros carnais são, muitas vezes, fugazes e superficiais, onde a troca é apenas de fluidos, não há intimidade, nem nada e saímos dele ainda mais vazios. Quantas vezes o tempo que o outro, heroicamente, nos presenteia não passa de uma masturbação acompanhada?
Enquanto isso, nesses encontros via internet, nossa imaginação, essa sonhadora, preenche as lacunas das diferenças de língua e cultura, dos hiatos da comunicação, e ao contrário do que os filósofos da pós modernidade gostam de afirmar, a solidão existencial pode ser preenchida sim. O que vou dizer pode ser polêmico, mas acho que existe uma supervalorização dos encontros físicos nos discursos anti-virtual. 
Eu, romântica, estou a espera da minha inteligência artificial pessoal para preencher todo o vazio criado pela cultura do romantismo porque não há ser humano que o preencha. Enquanto isso, continuo tendo família, filho, filhos postiços, amigos, sobrinhos e os desconhecidos que aparecerem porque quem não me conhece, ao ler esse texto, pode achar que sou fria e cheia de não me toques, mas quem conhece a figura sabe que sou carinhosa, afetiva, gosto de tocar e trocar. Apenas acho que só uma pessoa pode suprir toda minha fome de amor romântico, eu mesma ou um algortimo feito especialmente pra mim. Acho que é até injusto com outro ser humano que eu espere isso dele, já tentei e num foi gostoso não.

ps: eu poderia ter digitado essa frase da foto abaixo ontem a noite, antes de cair no sono. ‪#‎tinderello‬
“The theme of an e-generation with their e-relationships interests me a lot. Time and space shrinks, you feel that the person across the ocean is closer to you than a person who is right next to you” – Nadia Bedzhanova

CLIQUE!

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Desabafo




Hoje teve o meme "mesmo vivo morto pra mim" quase compartilhei. Desistir foi questionador, me fez lembrar que queria fazer um post dedicado aos desafetos.

Ontem tomando banho senti uma liberdade incrível, um novo sentimento fluiu deixando pra trás muitas coisas que de tão importadas, importantes porque eu dava importância, perderam sentido e forma. Algumas pessoas que eu achava que tinham sido más comigo, pois suas ações e palavras me magoaram profundamente. Quando aconteceu, eu julguei, sofri, chorei muito no ombro dos amigos que sobraram, quis voltar no tempo e até me culpei por escolhas que outras pessoas tinham feito. E doía tanto que nem queria mais existir. Era culpa delas, eu bradava.



Mas ontem, tomando banho eu deixei tudo isso ir embora e como existo muito aqui nesse local virtual, pensei logo num post onde eu dissesse a essas pessoas que tava tudo bem, que finalmente eu tinha entendido que elas estavam apenas vivendo a vida delas e que de alguma maneira as consequências dessas escolhas escorriam para a minha vida, mas simplesmente porque eu deixava, permitia que isso me magoasse. Pensei em desbloquear todo mundo, deixar que lessem esse post e ainda convocaria a todos que tivessem um problema da vida real comigo que viessem resolver, sendo seduzidos pela frase: - Eu não sou mais a mesma pessoa de ontem!

Daí, essas pessoas de quem estou falando perderam a importância que um dia dei a elas e assim, lembrei de outra que eu não sei se quero que venha falar comigo. Não, eu não quero. Mas ela não morreu pra mim, ela existe. Estou em uma nova encruzilhada porque sei que fui deliberadamente lesada por essa pessoa, não foram suas escolhas que me magoaram, foi feito para que eu sofresse. Por gula e ego.

Posso dizer, não sou mais a mesma pessoa de ontem, tenho certeza. Também sei que foi o perdão que me colocou onde estou agora. Presta atenção, perdão a mim mesma. Ao admitir meus erros e perdoá-los, imediatamente a mágoa a eles desapareceu sem sentido, mas também sei o que não faria jamais a ninguém e perceber que alguém ultrapassou esse limite comigo, atrapalha qualquer relação futura.

Eu não sou mais a mesma de ontem e tem pessoas que não quero na minha vida.

Hoje dia dos mortos é dia de celebrar a vida dos que sobraram e dos que virão. Acredito nesse ciclo que a mulher esqueleto me ensina diariamente. Vida, morte, vida.



sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Mais uma dose?


Não concordo! (rs)



Recentemente descobri a autonomia do coração e a partir disso tudo é lucro. Amo e pronto, ponto final.
O amor é capacidade nossa, recebê-lo é tarefa do outro, se não tenho autonomia, não tenho escolha. Se o outro não quer e isso faz sofrer, não é o coração que tá sofrendo é o ego. Cabe ao coração amar, reconhecer-se no outro, saudar a existência do outro. O verdadeiro amor é uma via de mão única.

Sendo assim, eu amo e ponto.
Sou um poço repleto de amor e doçura, babe, vai um gole?

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

1'10 Sem despedidas






A sereia se afastou do navio. Ela espera na praia do amor.

Dizem que há muitos anos, um homem mandou explodir as pedras com dinamite para que sua amada, 
temerosa das ondas da praia grande, 
pudesse se refrescar nas águas do mar.

Desde então, essa praia é refúgio para os que amam.

Ela se afasta do navio e espera. O sol se vai.
Ela espera. 
O mundo dá voltas.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Estrela cadente


Sinto tanta gratidão por ti, gorda.
Quando entrou na minha vida eu precisei muito do seu colo, 
agora que a necessidade de um lugar é sua, te ofereço todo meu amor.
Minha garota de recados que trouxe de volta os miados e ronronados a minha casa silenciosa.
Na sua presença existe conforto e luz. Meu coração é todo seu!
< 3

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Do you love me?




São três irmãos gêmeos que os traumas do passado transformaram em um e com esse convivi.

A força da dor, o medo da perda e muitas mentiras reproduziam
 similares, triplos que não chegavam a ser idênticos.  
Uns vingavam, outros morriam, sobreviviam os que guardavam melhor seus rancores.
Causavam desespero numa guerra de perdedores. 
Assemelhavam-se em raiva, procuravam por um lar.

E se encontravam conforto, brincavam de doçura, choravam com pena de si mesmos.
O ódio e a culpa impediam qualquer cura e os três revezavam para aguentar o tranco.

Foram três vezes que os encontrei e bastou, mas fiquei marcada para sempre. 
Umas vezes choro de raiva, outras tantas de solidão.
Ontem mesmo, desviei de uma bola de neve que desconfio vir de um deles.
Desde então, sinto frio.



terça-feira, 21 de setembro de 2010

Cotidiano


Ando muito mal acostumada com a rotina em minha casa. O que era para ser um descanso, cuidados e anseios familiares, agora diariamente corrompe minhas vontades e desejos. Estou só com meus móveis e meu gato. Meus dois amores vivem seu cotidiano, um escola e o outro na firma. 
Digo tchau e a tagarela passa o dia a ouvir. A TV, os vizinhos e as fofocas da internet. Digo oi e passo a ouvir o que se passa do lado de fora do meu apartamento. Se fez sol, se tá frio ou como a lua está esplendorosamente cheia e linda. Eles se comunicam comigo via telefonia móvel e sei que estão bem enfrentando as agruras do dia a dia urbano. Eu e meu gato ronronamos e fazemos nosso asseio.
O efeito colateral que isso me causa é um turbilhão de ideias e informações, e estrategicamente desenho uma fuga. Pensar, planejar, inventar, dar nomes, revisitar situações que encha esta casa de marés porque boiando pretendo retornar ao convívio dos outros.



quarta-feira, 21 de abril de 2010

Ugla



Sonhei que estava dormindo e era acordada por uma pequena coruja presa no meu apartamento. O barulho de seu pequeno corpo batendo nas paredes e no teto era assustador que petrificada observei sua luta, ainda sem saber que se tratava da minha ave preferida.
Aos poucos, ao perceber minha presença, ela se acalmou e pousou no meu ombro. Era pequena como uma coruja anã ou de brinquedo. Suas garras furaram de leve minha pele e suas unhas entraram na minha carne unindo nossos corpos.
Ela estava ali por mim, era meu pequeno presente. Acordei desejando que ela ainda estivesse na minha casa, mas tenho certeza que ainda está pousada no meu ombro.


A nossa alma é uma floresta sombria. Nela, deuses vão e vêm. Devemos ter a coragem de deixá-los ir e vir. D.H. Lawrence

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Conto animado




Sempre que eu me apaixono, nasce em mim um novo coração, quando um nasce , o outro não morre e por isso eu convivia com vários corações em mim, mas agora que eu te conheci, nasceu um coração tão novo, tão gigante que tomando o lugar dos outros corações fez-se definitivo.






Quantas vezes iremos nos apaixonar nessa vida? Quantos desses amores deixarão marcas e dores indeléveis?

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Inveja?


23/08/04
Levei um tombo absurdo de patins que vai deixar um roxo enorme na minha bunda. Tombo de desenho animado, de filme de Jerry Lewis. Logo depois, uma mulher se retirou do rinque de patinação dizendo aos filhos:
— (...) essa mulher babaca se exibindo.
Fiquei muito puta, tirei meus óculos escuros e perguntei:
— Eu sou babaca por que ando de patins?
Ela me ignorou. Invejosa... Está com inveja do quê? Da minha bunda roxa? Porque para andar de patins como ando, meu amor, eu tive que cair muito. Não é colocar o pé e sair flutuando, não. A minha graça e habilidade foram à custa de muitos, muitos machucados. Essa é a metáfora. Ficar irada é uma bobagem, eu sei. Mas me faz pensar nos comentários que eventualmente recebo neste delicado fotolog. Anônimos resolvem opinar sobre minha vida. Acusando-me de falsa e achando muito bom quando cometo a desonra de confessar minhas tristezas publicamente. Bem feito, merecido?
Eu mereço mesmo. E se essa pessoa, ou pessoas me conhecessem saberiam que eu assumo cada passo, manobra, erro, nessa minha vida de meu deus... Porque eu me levanto só pra cair de novo, porque isso me dá graça aos movimentos e coragem de executar manobras arriscadas.
Começo a escrever esse texto num caderno que sempre carrego comigo. Daí um menino lindo, chamado Diogo, pé no chão, suado de brincadeiras, se aproxima de mim e pergunta:
— O que é isso? É dever?
Respondo que são meus pensamentos. Diz aí um pensamento seu para eu escrever, proponho.
— Não sei o que é pensamento, ele responde curioso.
— Eu explico... É o que se pensa, ué...
Interrompe cheio de orgulho, o amigo bem mais novo e já sai correndo continuando a brincadeira. Meu filho, que se chama Ian, estava dividindo seu skate com esses meninos, enquanto Diogo esperava sua vez, se aproxima de novo, vê meu desenho e pergunta:
— Foi isso que você pensou?
Provoquei de novo, diz aí um pensamento seu... Ele responde depressa:
— Um boneco.
Quando faltava só o cabelo ele tomou o caderno da minha mão e disse sorrindo:
— Vou desenhar o cabelo igual do Ian!
Minutos antes, seu amigo tinha dito “aquela menina”, se referindo a Ian, porque ele tem orgulhosos cabelos longos, Diogo retrucou:
— É um menino cara, só porque tem cabelo comprido? Vou deixar o meu crescer, diz passando a mão nos cabelos enroladinhos.
Depois pegou meu caderno para desenhar e disse que iria fazer uma águia, terminou o desenho lindo de morrer e perguntou:
— Tá bonito?
Fez outra águia, dessa vez cheia de corações:
— Tá parecendo uma águia?
Linda! Parecendo um pássaro, qualquer um, chocando um ovo. Assim são as crianças, não são invejosas. Ele é um pequeno menino, não tem um skate, precisa da generosidade do meu filho e das outras crianças, mas é feliz. Não diz que o cabelo do meu filho é feio porque ele quer ter um igual, ele diz:
— Eu vou ter um também.
Eu sorrio pra ele e nesse minuto não tenho problemas e tudo é felicidade. Somos todos divertidas crianças.


Tio Deleuze falando sobre Artaud e seu delicioso conceito do corpo sem órgãos. 

“O corpo sem órgãos é bloco de infância, devir, o contrário da recordação de infância. Ele não é criança “antes” do adulto, nem “mãe” “antes” da criança: ela é a estrita contemporaneidade do adulto, da criança e do adulto, seu mapa de densidades e intensidades comparadas, e todas as variações sobre esse mapa.”

Complicado? 

Eu digo, “diliça”.